segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Uma lição....




Sempre pensei que se um dia tivesse um filho rapaz, iria tentar convencê-lo a jogar hóquei em patins.

Não sendo um desporto muito conhecido é um desporto que exige destreza, óptimas condições fisícas, inteligência, movimento, coordenação, etc...


Eu estaria nas bancadas a torcer por ele e a ajudar a carregar os equipamentos.


Claro que quando o André nasceu, esse e outros sonhos foram para outros lados e vieram novos sonhos...


Começei a dar valor a coisas mais importantes, como andar, falar, pensar....

Nunca mais me lembrei do hóquei, porque um dos requesitos minimos para o hóquei era andar de patins, coisa que para o André estava a anos luz.

O André tem, como é característico na T21 uma hipotonia muscular o que faz com que nele, a coordenação e força dos musculos dele seja inferior. É por isso que normalmente estes meninos andam mais tarde, normalmente por volta dos 3, 4 anos.

Felizmente ele começou a andar aos dois anos.


Uma vez, com seis anos experimentei pô-lo em cima dos patins em linha da irmã e claro que ele nem conseguia equilibrar-se. O corpo dele ficava mole, as pernas iam para a frente e se o largasse lá ficava ele no chão. O corpo dele parecia gelatina nas minhas mãos.


Deixámos os patins e continuamos na bicicleta com rodinhas que ele adora andar.


A irmã, entrou este ano na patinagem artistica. Apesar de ser um bocadinho medrosa (é mesmo menina) lá vai andando e descobrimos que se formos lá ao fds eles deixam os miúdos experimentar.

Claro que o Bruno ficou todo entusiasmado. Ele que é todo radical, começou logo a experimentar os patins.

O André ficou sentado comigo e com o kiko na bancada.

- O André vai andar - Disse ele umas 30 vezes

- Patinagem - Disse ele mais outras 30 vezes

Nessas alturas eu sentia um baque no coração. Como explicar ao meu filho que ele não conseguia?

Levá-lo e vê-lo ali triste a querer participar... os olhos dele brilhavam a olhar para os outros miudos....

É nestas alturas que a revolta se apodera de nós, quando sabemos o que eles querem e queremos dar-lhes tudo....

Quando voltamos lá a 2ª-vez, eu estava decidida.

Se o André queria andar de patins, só havia uma solução.

O André ia andar de patins.

Falei com o treinador e pedi-lhe para o deixar experimentar. Eu ia andar com ele no ringue.

Ele concordou.

A felicidade do meu filho quando percebeu que ia entrar no ringue e calçar os patins é indescrítivel.

Claro que fui eu que segurou sempre o seu corpo. Claro que a cada dois passos ele dava uma queda porque ainda por cima ele queria patinar a alta velocidade.

Mas o André caia e lavantava-se. Uma, duas, dez, vinte, cinquenta vezes.

A terceira vez foi este fim-de-semana.

No sábado lá fomos todos.

A minha mãe foi ver.

Deu uns quantos gritos da bancada ao ver o neto cair e ao fim de 5 minutos foi-se embora.

Os meus pais adoram o neto e não conseguem ver o menino magoar-se.

Quando lá fomos almoçar, disse-me:

- Que tipo de mãe és tu, que metes o teu filho nunca coisa que ele não consegue fazer estanto sujeito o menino a cair e magoar-se? Pode partir uma perna ou a cabeça? Não tens amor ao teu filho?

Sei que a minha mãe me adora a mim e ao André e que só o que proteger.

Mas não consigo pensar como ela

Respondi-lhe do fundo do meu coração:

- Não sei se o meu filho algum dia vai conseguir andar. Sei que ele sonha que pode andar. Sei que ele deseja andar e sei que ele está feliz. É a minha obrigação como mãe, estar ao lado dele nos sonhos dele. O meu objectivo ao lado dele é ajudá-lo a ser feliz e não o impedir de realizar aquilo que ele mais quer. Se ele tiver de andar, comigo ao lado dele e isso o fizer feliz, assim será.

A minha mãe calou-se.

Percebeu.

Sei que ela não aguenta ver o neto cair.

Mas eu não aguento ver o desejo nos olhos dele.

O Kiko sugeriu comprarmos-lhe uns patins. Porque no ring são emprestados e todos os dias são diferentes.

À tarde fomos comprar-lhe os patins.

Ele estava tão feliz!!!

E ele já tinha um objectivo.

Dizia-me:

- O André vai andar de patins.... sózinho!

E reforçava a ultima palavra.

Está bem filho, vamos trabalhar para isso.

No Domingo de manhã, lá fomos de novo.

Com os patins novos o André continuou a dar-me instruções:

- Vai embora

- O André anda sózinho.

De onde lhe nasce esta garra?

Ao fim de umas voltas, levei-o para o meio do ringue.

Soltei-o com um aperto no coração.

Vai Andre, vai até à barra.

Ele foi, caiu, levantou-se, caiu....

Não desistiu.

Chegou à barra.

Tentamos mais uma dezena de vezes.

Ia melhorando...

Deixei-o a descansar e foi ensinar a Catarina a cruzar os pés nas curvas.

O André impaciente, viu o Bruno passar por ele a patinar e não foi de meias medidas.

Lá foi ele....

Caiu, levantou-se... um série de vezes... e depois...

Depois deixou de cair. Conseguiu atravessar a parte mais curta do ringue.

Sózinho.

Tal como ele disse.

E as poucas pessoas que assistiam, festejaram.

Filho... deste-me mais uma grande lição.

Desculpa algum dia ter duvidado. Isto só prova aquela grande frase:

"Sempre que um homem sonha é porque é possível alcançar esse sonho".

Tu acreditaste sempre que conseguias.

E vais conseguir, porque essa garra não te deixa!

O treinador veio falar conosco e disse que ele equilibrava-se melhor que muitos miudos que andavam ali há mais tempo. Imaginem o meu orgulho!!!!

E depois acrescentou:

- Daqui a uns tempos, assim que ele andar mais depressa, e se aguentar melhor vou por-lhe um stick de hóquei nas mãos e voçês vão ver a alegria dele.

Hóquei?

O meu velho sonho, mais que adormecido voltou.

Tu conseguires dar uns passos em cima de uns patins, dá-me muito mais alegria do que algum dia teria, se fosses um menino normal, igual a tantos meninos a jogar hóquei.

Realizares a tua vontade faz-me mil vezes mais feliz.

Filho, se algum dia chegares a patinar com um taco e se isso te fizer feliz, muito bem.

Se não chegares lá, mas eu vir os teus olhos a brilhar sempre que conseguires dar uns passos sem cair... isso enche-me de orgulho.

Obrigada, por me lembrares mais uma vez, que nunca devemos desistir de sonhar.

Adoro-te!!!

6 Comentários:

Às segunda fev. 12, 04:46:00 da tarde 2007 , Blogger Smas disse...

Olá!
Tenho lágrimas nos olhos de ler esta história.
O meu filho anda a aprender patins, no hóquei, mas as suas conquistas nada são perto da determinação do teu Guerreiro!
Realmente temos de acreditar sempre e eles dão-nos grandes lições, não é?
Bjs grandes e parabéns pelas conquistas do teu menino/

 
Às quarta fev. 14, 12:29:00 da manhã 2007 , Blogger Grilinha disse...

Imaginas a felicidade que compartilho ao ler esta história LINDA ? Não deve ser nada comparada com a tua...mas é verdade que sim, deu-te uma grande lição !!! E realmente a Super-protecção não é lá muito amiga do desenvolvimento !!! Amiga Guerreira ! Adoro-vos, nos bons e nos menos bons momentos e hoje estou aqui para pular de alegria contigo. Um beijo

 
Às quinta fev. 22, 03:31:00 da tarde 2007 , Blogger @Memorex disse...

Apesar de responder-te uma vez, não resisto esta magnifica experiência!

Fiquei emocionada, o bastante para que libertasse as minhas lágrimas, literalmente uma lição de vida!

Aqui deixo-te milhares de beijinhos e uma citação bastante sentida:

“O Homem não foi feito para a derrota. O Homem pode ser destruído, não pode ser Vencido.”
Ernest Hemingway

Estou encantada!

 
Às sábado mar. 31, 01:09:00 da tarde 2007 , Blogger paidopedro disse...

olá! embora já várias vezes tenhas visitado o vida com pedro, é a primeira vez que venho aqui. gostei muito deste post. vou-lhe fazer referência no blog do pedro. obrigado por partilhares estes sentimentos e dilemas interiores.

 
Às quarta abr. 04, 02:45:00 da tarde 2007 , Blogger Maria Romeiras disse...

Adorei este depoimento de determinação e coragem. Muitas felicidades e continuação de bons progressos. Um abraço.

 
Às quarta abr. 25, 10:25:00 da manhã 2007 , Anonymous Anónimo disse...

Lindo!!!
Também tenho um filho especial. Faz um mês que perdi a minha mana do coração. Ela que me ensinava grandes lições, me apoiava e amava o meu menino como uma segunda mãe. Uma das grandes verdades que me ensinou foi esta: "Pode mais quem quer, do que quem pode".
Beijinhos para o campeão.

Mónica

 

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